BEM-VINDOS(AS) À ERA DIGITAL
É consenso de que vivemos novos tempos. Com o advento da internet e sua democratização, sobretudo a partir da popularização dos smartphones; a difusão de novos e múltiplos mecanismos de comunicação remota; a ampliação do alcance e diversidade das redes sociais; e a emergência recente das inteligências artificiais, não resta dúvidas: adentramos à Era Digital.
E a digitalização da sociedade se manifesta como um fenômeno macrossocial de escala global, um desdobramento da chamada Sociedade da Informação, que também é um produto do processo de Globalização (KOHN et al, 2007) e que reverbera nas diferentes esferas e classes sociais.
A Sociedade da Informação estrutura-se, em primeiro lugar, a partir de um contexto de aceitação global, na qual o desenvolvimento tecnológico reconfigurou o modo de ser, agir, se relacionar e existir dos indivíduos e, principalmente, propôs os modelos comunicacionais vigentes. Não se pode separar a informação da tecnologia, algo que vem sendo remodelado e institucionalizado com os avanços na área do conhecimento e das técnicas. (KOHN et al, 2007, p. 2-3).
A Sociedade da Informação, conforme Kohn et at (2007), é aquela na qual a informação é utilizada intensamente como elemento da vida econômica, social, cultural e política, cuja existência está diretamente relacionada a um suporte tecnológico, responsável pela propagação da informação, tornando-se um fenômeno sociológico instaurado no seio da sociedade pós-moderna. E, segundo a autora, observa-se uma mudança de paradigma em curso no âmbito dos processos comunicativos que, inclusive, se reflete nos modos de vida atuais. A digitalização da sociedade, como um produto da Sociedade da Informação, é um meio para que este novo paradigma se consolide.
Segundo Castells (1999), a habilidade de uma sociedade dominar ou incorporar novas tecnologias está vinculada às transformações históricas e ao destino social das mesmas. Esse fenômeno, ainda que aconteça de forma temporal – em maior ou menor velocidade, acaba se tornando um limitador que atua, no extremo, como um elemento de definição e segregação sociocultural. Isso significa que à medida que uma sociedade não se adeque às novas tecnologias, a tendência é que ela encontre dificuldades ou seja excluída dos processos de troca econômicos, sociais e culturais, ou seja, da própria teia de relações que delimita a organização social vigente. Nesse sentido, podemos entender a apropriação tecnológica como um mecanismo central para sobrevivência em meio ao caos do mundo globalizado.
Hoje, (quase) todos se encontram conectados e, não fazê-lo, chega a ser inimaginável, principalmente quando se busca a inserção nas dinâmicas de relacionamento contemporâneas. As relações de trabalho mudaram, os processos comunicativos se transformaram, a forma de pensar e expressar o pensamento se alterou, os meios de reivindicação e protesto mudaram, enfim, vivemos um novo tempo, inacabado, que ainda se reconfigura e desafia a própria história e o curso das interações humanas.
Sendo um processo global e capilar, que permeia toda a sociedade, a digitalização está presente também no âmbito da instalação de empreendimentos, sobretudo no que diz respeito ao mapeamento e engajamento de stakeholders.
Não há dúvidas de que um projeto, para que seja viável, precisa interagir com as partes interessadas que integram o seu contexto de atuação. E, mais do que isso, é necessário manter um relacionamento positivo, calcado no conhecimento das demandas e no engajamento, em um cenário de cooperação mútua no qual as comunidades são, elas mesmas, elementos decisórios nesse processo.
Mas, como fazer isso se a configuração das relações mudou sob a égide da Era Digital? Eis, aí, uma baita oportunidade.
2. COMO MAPEAR E ENGAJAR STAKEHOLDERS NA ERA DIGITAL?
O primeiro ponto que devemos entender é que, como tudo na vida, a digitalização da sociedade é um fenômeno com impactos substanciais, tanto positivos quanto negativos. Para fins didáticos, vamos nos ater aqui aos aspectos positivos e que podem ser utilizados como importantes ferramentas para o mapeamento e engajamento de stakeholders (em um outro post falamos dos aspectos negativos, ok? 😉).
Nessa linha, podemos destacar cinco características da Era Digital presentes nos processos de comunicação que reverberam no mapeamento e engajamento de stakeholders:
1. Velocidade de difusão da informação: a Era Digital é marcada pela instantaneidade na propagação da informação. Uma notícia, um feedback ou uma atualização podem alcançar diferentes partes interessadas em questão de segundos. Esse fenômeno acelerado possibilita respostas rápidas e ajustes ágeis nas estratégias de engajamento, exigindo uma abordagem proativa das organizações para acompanhar esse ritmo intenso e dinâmico.
2. Rompimento das barreiras de comunicação: a comunicação na Era Digital transcende fronteiras geográficas e hierárquicas. Stakeholders de diferentes partes do mundo podem se conectar e interagir, criando uma rede global de influências. O rompimento das barreiras tradicionais amplia o alcance das mensagens, permitindo que as organizações se conectem diretamente com públicos diversificados, obtenham feedback valioso e promovam uma comunicação mais inclusiva. Hoje, é possível que um morador de uma comunidade tenha acesso ao CEO de uma empresa através das redes sociais, por exemplo. E, por outro lado, é possível que um time de comunicação localizado em um grande centro urbano se comunique em tempo real com moradores em áreas remotas.
3. Descentralização das relações: na Era Digital, as relações tendem a deixar de ser rigidamente centralizadas nas organizações. A ascendência das redes sociais e plataformas de comunicação online descentralizou o poder, permitindo que indivíduos e comunidades exerçam influência significativa. O mapeamento de stakeholders deve, portanto, considerar essa descentralização, identificando não apenas as partes interessadastradicionais, mas também potenciais líderes de opinião e comunidades online que exerçam impacto relevante.
4. Integração de mídias e plataformas: a diversidade de canais disponíveis, como redes sociais, blogs, podcasts e plataformas de vídeos, oferece oportunidades para uma comunicação mais rica e envolvente. O mapeamento eficaz deve abranger esses diversos meios, adaptando estratégias de engajamento para cada plataforma e garantindo uma presença consistente e coerente.
5. Protagonismo e vocalização do sujeito: as redes sociais oportunizaram aos indivíduos expressarem suas opiniões de forma aberta e direta. Nesse sentido, muitas pessoas revelam os seus posicionamentos, anseios, insatisfações e expectativas através das mesmas. Por essa razão, atualmente, um número considerável de empresas vem se especializando no chamado “monitoramento de mídia”. Essa atividade, ainda pouco explorada no campo socioambiental, tem sido utilizada com eficácia no âmbito da pesquisa de opinião, no campo político, e em pesquisas de marketing. E por que não utilizá-la no mapeamento e engajamento de stakeholders? Como um determinado ator se posiciona nas redes sociais? Quais são os seus interesses? Qual a sua opinião sobre um tema X? Essas questões, que antes só poderiam ser consultadas através de uma pesquisa de profundidade de alto nível de complexidade (pois exigiria uma abordagem qualitativa, dotada de um quebra-gelo eficaz para estabelecimento de uma relação de confiança, etc.), hoje estão em certa medida publicizadas pelos próprios atores em suas redes sociais, ao alcance da mão.
Deste modo, a Era Digital abre um universo de possibilidades ao processo de mapeamento e engajamento de stakeholders. Vamos destacar algumas delas:
✅ Monitoramento de Mídia: é possível utilizar ferramentas de análise de redes sociais para identificar e compreender os stakeholders e os posicionamentos relevantes em torno da empresa ou empreendimento. Isso permite uma resposta proativa a problemas emergentes e uma melhor compreensão das expectativas dos atores.
⚠️ Obviamente que aqui é necessário considerar todos os limites impostos pela Lei Geral de Proteção de Dados e demais legislações correlatas.
✅ Engajamento Interativo: um dos meios mais eficazes e promissores é a promoção da participação ativa dos stakeholders por meio das redes sociais e plataformas interativas. Perfis e canais oficiais, enquetes online, fóruns de discussão e webinars são alternativas relevantes para se envolver os atores e coletar insights valiosos para a estratégia de comunicação a ser adotada pela empresa.
✅ Análise de Dados Avançada: é possível utilizar análise de dados avançada para identificar padrões comportamentais e antecipar as necessidades dos stakeholders. Essa abordagem preditiva pode subsidiar estratégias futuras e aprimorar a tomada de decisões.
✅ Personalização na Comunicação: as novas ferramentas de comunicação permitem que sejam adotadas estratégias de comunicação personalizadas com base nas preferências identificadas dos stakeholders. A personalização não apenas aumenta a relevância, mas também fortalece os laços entre a empresa e seus públicos.
3. BENEFÍCIOS DO MAPEAMENTO DE STAKEHOLDERS NA ERA DIGITAL
Além da resiliência/sobrevivência inerente a essa nova realidade social, é possível ressaltarmos alguns benefícios da utilização das ferramentas digitais no mapeamento e análise de stakeholders – o que significa, em último caso, não nadar contra a maré.
😃👍🏻 Comunicação Fluída e Dinâmica: a velocidade das redes sociais possibilita que o processo de comunicação aconteça de forma direta, o que trará a sensação de fluidez e dinamicidade aos stakeholders.
😃👍🏻 Melhoria da Reputação e da Imagem: uma compreensão mais aprofundada dos stakeholders permite um planejamento estratégico assertivo, bem como uma resposta eficaz às questões e preocupações dos atores, fortalecendo a reputação e a imagem da empresa/empreendimento.
😃👍🏻 Interações Orientadas: a avaliação e engajamento contínuo dos stakeholders obtido por meio de interações digitais possibilita que a comunicação esteja centrada nos próprios atores, resultando em um processo de relacionamento mais alinhado com suas expectativas.
😃👍🏻 Resiliência Empresarial: a capacidade de antecipar as mudanças nas expectativas dos stakeholders aumenta a resiliência da empresa, permitindo ajustes rápidos às demandas locais.
😃👍🏻 Contribuição para a Tomada de Decisões Estratégicas: o mapeamento de stakeholders na Era Digital não apenas fornece informações valiosas sobre as expectativas e necessidades dos atores envolvidos, mas também contribui diretamente para a tomada de decisões estratégicas. A análise de dados coletados digitalmente permite identificar padrões e tendências, fornecendo insights que podem ser utilizados na formulação de estratégias mais alinhadas com as dinâmicas atuais da sociedade.
😃👍🏻 Eficiência na Identificação de Líderes de Opinião: a descentralização das relações na Era Digital propicia a emergência de líderes de opinião em diversos nichos. O mapeamento digital permite identificar esses influenciadores, que muitas vezes exercem impacto significativo em suas comunidades. Integrar esses líderes em estratégias de engajamento pode potencializar a disseminação de mensagens e fortalecer a conexão com públicos específicos.
😃👍🏻 Adaptação Contínua: o mapeamento em tempo real e a análise de dados permitem ajustes ágeis nas estratégias de engajamento, garantindo que as empresas permaneçam alinhadas com as evoluções nas expectativas dos stakeholders.
😃👍🏻 Fortalecimento da Cultura Organizacional: O engajamento digital não se limita aos stakeholders externos; ele também desempenha um papel vital na construção e promoção da cultura organizacional no nível interno. A comunicação transparente e a interação constante contribuem para fortalecer o senso de pertencimento e alinhamento dos colaboradores com os valores da empresa.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este breve texto buscou refletir sobre algumas das características dessa nova configuração social que se desenha, encontra-se inacabada, mas já é vigente e exerce influência crucial nos processos de comunicação contemporâneos. Por essa razão, não tivemos a pretensão de esgotar o assunto, ainda existe um mar de possibilidades a ser explorado (e faremos isso em posts futuros, então, se gostou desse conteúdo, aproveite pra seguir o perfil e não perder nada – momento merchan concluído com sucesso 😅).
Porém, podemos ressaltar que o mapeamento de stakeholders na Era Digital é mais do que uma adaptação às novas tecnologias; é uma estratégia indispensável para a sobrevivência e o sucesso das empresas e empreendimentos. O gênio Chacrinha, considerado por muitos como o maior comunicador brasileiro da história, já dizia que ”quem não se comunica, se trumbica”, e isso continua valendo, com novos contornos, na Era Digital; ou seja, a interconexão global, a rapidez na disseminação da informação e a descentralização das relações tornam o mapeamento e análise de stakeholders no ambiente digital não apenas uma ferramenta eficiente, mas uma necessidade premente.
Ademais, ao abraçar as oportunidades oferecidas pela Era Digital no mapeamento e engajamento de stakeholders, as organizações não apenas fortalecem suas relações com as partes interessadas, mas também se posicionam de maneira mais resiliente e estratégica diante dos desafios contemporâneos. A transparência, a adaptabilidade e a autenticidade na comunicação digital tornam-se pilares essenciais para a construção de uma reputação sólida e a promoção de uma cultura organizacional inovadora e colaborativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLS, Manuel. La Era de la información: economía, sociedad y cultura. México: Siglo Veintiuno Editores, 1999.
KOHN, Karen; MORAES, Cláudia Herte de. O impacto das novas tecnologias na sociedade: conceitos e características da Sociedade da Informação e da Sociedade Digital. In: XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2007. p. 1-13.