Quando começar um processo de engajamento de stakeholders?

Quando um empreendimento se inicia, pode-se presumir que o projeto traga consigo um modelo baseado na busca pelo crescimento econômico que, por sua vez, fundamenta-se na ideia ocidental de desenvolvimento, pautada na economia de mercado e na eficiência operacional, muitas vezes com atividades 24 horas por dia, sete dias por semana e distribuição do trabalho em turnos. Porém, uma questão fundamental que deve estar na base do processo é: essa ideia de desenvolvimento é conhecida e compartilhada pelas partes interessadas locais?

O processo de projetar e construir grandes empreendimentos tende a pressupor uma abordagem baseada na maximização dos lucros. Embora essa proposta seja fundamental para as metas financeiras imediatas da empresa, pode não estar alinhada com as expectativas iniciais dos stakeholders – governo, comunidades, empresas próximas, comunidades tradicionais, colaboradores diretos ou contratados do projeto.

Por essa razão, o melhor momento para se iniciar o relacionamento com as partes interessadas no âmbito de um projeto é ontem. Vamos explicar: quanto mais cedo o processo for startado, maiores as chances de que seja construída uma relação pacífica e de cooperação mútua entre as partes, justamente porque os interesses serão compreendidos com antecedência e o planejamento poderá ser modelado ou redesenhado de acordo com objetivos comuns.

Se o empreendimento for bem sucedido, então a tendência é que comunidades, fornecedores, prestadores de serviços e trabalhadores locais sejam positivamente impactados. Por outro lado, se o projeto fracassar, esses stakeholders também compartilharão eventuais efeitos adversos. Portanto, é do interesse mútuo da empresa e das partes interessadas buscar a compreensão dos objetivos, intenções e expectativas em relação ao empreendimento planejado.

Por exemplo, contratar mão-de-obra externa pode ser vantajoso para o empreendedor, em função da otimização de custos. Mas, se as expectativas das comunidades é desfrutar dos empregos a serem gerados a partir do desenvolvimento de habilidades, então esses dois objetivos estão dessincronizados e pode resultar em tensão, desconfiança e mesmo conflitos entre o projeto e os stakeholders.

Deste modo, o engajamento de stakeholders é uma etapa primordial ao desenvolvimento de um projeto e deve estar na base do seu planejamento estratégico.

E engajar-se é conhecer com profundidade as partes interessadas, compreendendo quais são suas expectativas e medos, o que as mantém com o sentimento de satisfação, segurança e estabilidade e por quê. E, para isso, o engajamento deve estar baseado em um diálogo de mão dupla, de compartilhamento de informações e experiências, o que possibilitará que sejam construídos relacionamentos de confiança fundamentados no respeito e na busca por benefícios compartilhados.

Por essa razão, o engajamento das partes interessadas deve ser um processo contínuo e permanente de comunicação e consulta entre empreendedor e os seus stakeholders, que podem ser afetados pelas decisões da empresa e, por sua vez, podem afetar as decisões do projeto. O engajamento das partes interessadas não é uma conquista de marco, como o termo “Licença Social para Operar” pode sugerir.

Dessarte, as partes interessadas devem ser envolvidas o mais cedo possível, de forma contínua e regular, e devem abranger toda a vida do projeto, desde a implantação até o seu encerramento.

O engajamento pode assumir muitas formas e combinações de métodos. Todavia, todas as atividades devem ser estrategicamente planejadas e direcionadas, bem como os resultados devem ser registrados e rastreados.

O QUE UMA EMPRESA TEM A GANHAR COM A ADOÇÃO DE UMA ESTRATÉGIA DE ENGAJAMENTO DE PARTES INTERESSADAS?

Abaixo seguem listados apenas alguns dos benefícios relacionados a implementação de uma estratégia de engajamento de partes interessadas.

Sucesso do projeto a longo prazo: Ao envolver as partes interessadas , uma empresa poderá identificar com maior clareza quais são os requisitos regulatórios locais, os potenciais impactos e oportunidades socioambientais do projeto, podendo avaliar se o mesmo será aceito ou não como inicialmente planejado. E, se não, as informações obtidas podem ser utilizadas no redimensionamento, fornecendo ideias de onde eventuais mudanças de design são possíveis. Envolver as partes interessadas desde cedo possibilita a equalização de interesses, contribuindo para o sucesso a longo prazo a partir do planejamento assertivo do projeto.

Confiança e lealdade: Quando os esforços de engajamento são efetivos, são elevadas as chances de melhoria nas relações com stakeholders, o que favorecerá a construção de vínculos de confiança entre a empresa e as comunidades. Esses esforços incluem: dialogar continuamente, cumprir compromissos, responder em tempo hábil, ser realista e honesto sobre o que a empresa poderá oferecer em termos de impactos positivos e negativos. A confiança entre um empreendimento e suas partes interessadas é a principal linha de apoio quando se trata de renovações de licenças, expansão, acesso à terra e assim por diante.

Eficiência operacional aprimorada: O engajamento consistente e contínuo das partes interessadas ajuda a criar um ambiente mais estável, no qual não há surpresas. E, caso uma decisão inesperada precise ser tomada, o relacionamento estabelecido e nutrido por estratégias de engajamento efetivas subsidiará o ambiente operacional e revelará informações críticas que são importantes para a tomada de decisões da empresa. O engajamento estratégico das partes interessadas ajudará a evitar conflitos com os stakeholders, minimizando as chances de protestos, bloqueios ou tentativas de sabotagem, contribuindo com a prevalência de um contexto operacional mais seguro. A perda de produtividade é o maior custo de um empreendimento e está estreitamente vinculado à capacidade de articulação e intervenção dos stakeholders, embora esse fator seja às vezes negligenciado. E não se deve perder de vista a relevância central de envolvimento dos colaboradores do projeto, também conhecidos como stakeholders internos. Trabalhadores em todos os níveis terão ideias sobre como a operação pode se tornar mais eficiente. Quando as equipes são envolvidas e valorizadas como um grupo de partes interessadas, tendem a demonstrar maior apoio e sentimento de pertencimento em relação ao empreendimento.

Reputação protegida: O engajamento das partes interessadas ajuda uma empresa a melhorar sua visibilidade e, portanto, sua reputação. Mesmo para um projeto considerado crítico, manter uma estratégia eficaz de engajamento das partes interessadas é fundamental para gerenciar relacionamentos, pois garante aos stakeholders que o empreendedor está aberto ao diálogo, de modo a ouvir e buscar resoluções de benefício mútuo. E, caso aconteça de grupos mais amplos de partes interessadas, como ONGs ou canais de mídia de massas, apresentarem desafios ao planejamento do projeto, é possível que os stakeholders locais sejam a primeira linha de defesa na proteção dos interesses do empreendimento. Quando um empreendedor garante um relacionamento positivo e forte com suas partes interessadas, suas questões facilmente se tornam também as questões de seus stakeholders.

Riscos gerenciados: O engajamento contínuo e consistente significa que as linhas de comunicação entre empreendedor e suas partes interessadas estão abertas e, dessarte, os interesses mútuos são compreendidos e monitorados. Quando as partes são capazes de se comunicar, o relacionamento é mais forte e isso pode levar a um ambiente operacional mais estável, evitando surpresas e contribuindo para uma melhor gestão de riscos.

Acesso a investidores: Relacionamentos fortes com as partes interessadas podem aumentar a capacidade do empreendimento em acessar oportunidades de investimento, expansão e mesmo venda futura do ativo. Relacionamentos sólidos com as partes interessadas também podem atrair “investidores de impacto”, a nova geração de empresas de investimento e investidores que tem por propósito realizar aportes em projetos que tenham por finalidade gerar impactos socioambientais positivos e que forneçam benefícios mensuráveis aliados a retornos financeiros.

Acesso a novos mercados: O engajamento das partes interessadas não se trata apenas de manter os stakeholders “felizes” e garantir que eles continuem apoiando um projeto. Esses relacionamentos fortes podem ser aproveitados para aumentar a compreensão do contexto local/regional e de como o projeto se encaixa nesse ambiente, ajudando na identificação de novas oportunidades de negócios.

E não se pode esquecer de como tudo isso alimenta um preço de ação fortalecido e reduz o risco de litígios.

Portanto, estabelecer uma estratégia abrangente de engajamento das partes interessadas proporcionará economia de custos a longo prazo e contribuirá significativamente para o sucesso do projeto. E quanto mais cedo um empreendedor implementar essa abordagem, melhor posicionado e mais seguro estará.

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